quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Crítica #5

Se há pessoa a quem o ditado "A minha vida dava um filme" se aplica que nem uma luva, essa pessoa é Amália Rodrigues. É que a vida da "rainha do fado" foi plena de peripécias que facilmente podem ser passadas para o grande ecrã. Tal conceito não é, no entanto, original: já Olivier Dahan o havia feito com Édith Piaf em LA MÔME. Por isso, aviso já: se estão à espera de encontrar uma espécie de La Vie en Rose à portuguesa... não se vão desiludir, pois AMÁLIA- O FILME é exactamente isso.

Nova Iorque, 1984. Amália (Sandra Barata Belo) descobriu que tem cancro e, por isso, contempla o suicídio na varanda do hotel onde está hospedada. Enquanto olha para a cidade, recorda a sua vida: a sua infância passada com os avós (António Montez e Amélia Videira), a relação com os pais (Eurico Lopes e Ana Padrão) e com a irmã Celeste (Carla Chambel), a morte da irmã Aninhas (Beatriz Costa) e os quatro homens que amou e que a marcaram: Francisco da Cruz (José Fidalgo), um guitarrista com quem Amália acaba por se casar contrariada; o playboy Eduardo Ricciardi (Ricardo Pereira), que tem vergonha de apresentar Amália aos seus amigos da alta sociedade; o banqueiro Ricardo Espírito Santo (António Pedro Cerdeira), que ela percebe que ama tarde demais e César Seabra (Ricardo Carriço), um brasileiro com quem Amália se casa pela segunda vez. Pelo meio, vamos acompanhando a sua carreira como cantora  e a sua ascensão ao estrelato.

Confesso que o filme me surpreendeu. Estava à espera de menos. Afinal, até está bem feito: tem interpretações sólidas, um argumento bem escrito, uma boa fotografia e uma banda sonora bem enquadrada (ao som das músicas de Amália que melhor conhecemos). Como já referi, tem óbvias semelhanças com La Vie en Rose: a estrutura narrativa; o facto de retratar a vida de uma cantora que se tornou um ícone do seu país, mas que, ao mesmo tempo, conquistou o resto do mundo (e de se centrar mais na pessoa do que na cantora); a banda sonora ao som das músicas mais icónicas da figura retratada e, a fechar o filme, a cantora a dar um espectáculo onde canta uma canção que resume toda a sua vida ("Non, Je ne Regrette Rien", no caso de Piaf; "Estranha Forma de Vida", no caso de Amália). Há no entanto duas diferenças: no caso de LA MÔME, a estrutura narrativa constituída por vários flashbacks dá uma sensação de desorganização; em AMÁLIA- O FILME, resulta muito bem (os flashbacks são inseridos no sítio certo e o espectador consegue acompanhar sem grandes dificuldades a história do filme); La Vie en Rose destacou-se pela fabulosa interpretação da sua actriz principal, Marion Cotillard (interpretação essa que lhe valeu o Óscar de Melhor Actriz), em AMÁLIA- O FILME, o mesmo não acontece (não me interpretem mal, Sandra Barata Belo interpreta muito bem o seu papel e foi uma boa escolha, mas não se destaca muito do restante elenco).


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