sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Crítica #7


O cartaz do filme é bastante enganativo. Dá a entender que estamos perante uma típica comédia romântica: homem conhece mulher, primeiro odeiam-se, depois apaixonam-se e vivem felizes para sempre. Este filme não é nada disso. Ou melhor, não é só isso. O título em português, curiosamente, é até bastante apropriado, dando no entanto uma ideia diferente do título original, J'ME SENS PAS BELLE (traduzido à letra, Não me Sinto Bonita). Passemos à história.
Fanny (Marina Foïs) tem 30 anos e é ainda solteira. Apesar de não o admitir, isso incomoda-a. O facto é que, após ter saído magoada de uma relação com um homem casado (Didier Bénureau), não pretende ter um compromisso sério com ninguém. O que ela quer é muito simples: sexo, sem compromissos nem restrições. Na noite em que a acção do filme se passa (e passa-se mesmo só numa noite, daí a boa escolha do título em português) Fanny convida Paul (Julien Boisselier), um técnico informático que lhe havia feito um favor no emprego, para jantar em sua casa, com a intenção de ter relações sexuais com ele.

Aquilo que começa por ser um processo de sedução transforma-se numa noite de descoberta e (re)despertar para o amor. É que Paul também saiu magoado de uma relação recente e Fanny não está preparada para lidar com isso. Ela não está preparada para se interessar genuinamente por aquele homem e por querer algo mais do que sexo dele. Aliás, quando ela se apercebe disso, tenta, a todo o custo mandá-lo embora. E ele faz tudo para ficar, pois percebe que há algo nela que o fascina. A uma dada altura os dois expõem-se totalmente perante o outro. Ele dança para ela ao som de música celta francesa, uma dança íntima e sensual que nunca havia mostrado a ninguém. Ela canta para ele uma das músicas que compôs, “Trentenaire et Célibataire” (Trintona e Solteira), e que practicamente resume aquilo que o filme quer dizer. No final dessa noite, entregam-se totalmente um ao outro. Fanny deixa cair as suas defesas e percebe que é possível amar sem ter medo, que ainda há quem a queira amar sem a querer magoar.

O espaço fechado e relativamente limitado do apartamento cria uma atmosfera intimista, mas também um pouco claustrofóbica, forçando as personagens a preencher os silêncios, a revelarem os seus “jardins secretos”. O facto de o número de personagens se limitar a duas (apesar de ouvirmos a voz da melhor amiga de Fanny, do seu ex-amante e dos barulhentos vizinhos de cima) também nos diz alguma coisa: uma relação deve ser vivida a dois, resolvida a dois. Só estando sozinhas, sem a interferência do mundo exterior, é que duas pessoas conseguem realmente conhecer-se, sem barreiras nem limites.

Todas as relações correm o risco de falhar. Todos nós corremos o risco de sair magoados, seja aos 20, 30 ou 40. Não podemos deixar que o passado comande o futuro. Como diz a música de Fanny, não há nada de mal em ser-se solteira aos 30, se for uma escolha. Grave é impedirmo-nos de ser felizes devido a um falhanço ou porque, como diz o título original do filme, não nos sentimos bonitas. J'ME SENS PAS BELLE é uma simples, mas belíssima história de amor. Ou melhor, de como reaprender a amar.
 

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