sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Crítica #8


A acção de CHANGELING passa-se nas décadas de 20 e 30, mas é surpreendentemente actual. Os temas que aborda e a forma como o faz são de uma proximidade assustadora. Se a tudo isto juntarmos o facto de recriar factos verídicos, será muito difícil ficar-lhe indiferente. Na verdade, a acção do filme é constituída por duas histórias, que acabam por se cruzar.

Comecemos pela primeira. Estamos em Los Angeles, em 1928. Christine Collins (Angelina Jolie) criou o seu filho, Walter (Gattlin Griffith), de 9 anos, sozinha e aquela criança é a sua razão de viver. Um dia, quando chega do emprego, o menino havia desaparecido. Desesperada, procura-o por toda a parte, comunicando, mais tarde, o seu desaparecimento à polícia. Alguns meses mais tarde, recebe a visita do chefe do Departamento de Menores da Polícia de Los Angeles, o Capitão J. J. Jones (Jeffrey Donovan), que lhe comunica que Walter foi encontrado vivo. A princípio aliviada, Christine depressa percebe que o rapaz que lhe foi entregue não é o seu filho, confrontando Jones com as discrepâncias físicas entre os dois e pedindo-lhe que continue as buscas. Mas a polícia de Los Angeles, que já há muito enfrenta acusações de corrupção, não está disposta a admitir que se enganou, e apesar das óbvias provas em contrário, insiste que a criança encontrada é Walter Collins e que Christine não o reconhece devido às supostas situações traumáticas vividas pelo menino. Sem alternativa, Christine recorre aos jornais para expor a sua situação, sempre com a ajuda do Reverendo Gustav Briegleb (John Malkovich), que já há muito se dedica a desmascarar a corrupção policial. Por ousar enfrentar a polícia, Christine é internada numa instituição para doentes mentais, onde o médico responsável, o Dr. Jonathan Steele (Denis O'Hare) a avisa que só de lá sairá quando admitir que aquela criança é Walter e que a polícia não se enganou, o que ela recusa fazer. Carol Dexter (Amy Ryan), uma outra paciente, explica-lhe que há várias mulheres internadas naquela instituição por ousarem enfrentar a polícia, incluindo ela própria.

E aqui entramos na segunda história. O detective Lester Ybarra (Michael Kelly) é destacado para ir a um rancho em Wineville, uma pequena localidade a poucos quilómetros de Los Angeles, com o objectivo de tratar da deportação de um adolescente de 15 anos, Sanford Clark (Eddie Alderson), para o Canadá. O que o jovem lhe conta é, no mínimo, macabro: ele vivia no rancho com o seu tio, Gordon Northcott (Jason Butler Harner), que o obrigou a ajudá-lo a raptar e matar aproximadamente 20 rapazes, entre os quais Walter Collins. A história é confirmada quando Ybarra regressa ao rancho acompanhado por dois colegas e encontra os corpos.

Aqui cruzam-se as duas histórias: Christine é libertada e o escândalo explode, destruindo a já frágil reputação da polícia de Los Angeles. Northcott é apanhado no Canadá, julgado e condenado à morte por enforcamento. O rapaz que se fez passar pelo filho de Christine era afinal Arthur Hutchins (Devon Conti) e só queria vir para Los Angeles para se encontrar com o seu actor preferido, tendo mais tarde sido instruído pela polícia para fingir ser Walter.

Em 1935, David Clay (Asher Axe), um dos rapazes que se pensava terem sido assassinados, aparece vivo. Ele conta à polícia como, numa noite, ele próprio, Walter e um outro rapaz, conseguiram fugir do galinheiro onde Northcott os mantinha presos, separando-se de seguida. Esta informação dá a Christine a esperança de que o seu filho ainda possa estar vivo.

À primeira vista este parece ser um tipo de filme estranho de ser realizado por Clint Eastwood. Mas o resultado é brilhante. A fotografia é fenomenal, recriando ao pormenor a Los Angeles dos anos 20 e 30. A esse nível, posso também elogiar o guarda-roupa e a caracterização das personagens. O argumento está muito bem escrito, colocando cada cena no sítio certo e intercalando as duas histórias de forma muito eficaz. A banda sonora parece-me ser um pouco repetitiva, mas nada que o espectador não consiga ultrapassar.

Quanto às interpretações, devo dizer que foram escolhidos os actores certos para os papéis certos. Jeffrey Donovan (que eu apenas conhecia da série da FOX, BURN NOTICE) está excelente na pele do corrupto capitão Jones; John Malkovich está perfeito como o Reverendo Briegleb, o homem que quer, a todo o custo, expor a polícia de Los Angeles como o bando de corruptos que são; Amy Ryan, apesar da sua breve participação, cativa o telespectador no papel de Carol Dexter, a prostituta que ousa apresentar queixa de um polícia que a havia agredido; Jason Butler Harner é fabulosamente odioso como o assassino psicopata, que mata pelo puro prazer de matar. Mas a estrela do filme é, sem dúvida, Angelina Jolie: ela está soberba na pele da sofrida Christine Collins, a mãe que enfrenta a polícia não para expor a corrupção, não para fazer política, mas, única e simplesmente, para recuperar o seu filho. Se o Óscar de Melhor Actriz Secundária que lhe foi atribuído em 1999 pelo filme GIRL, INTERRUPTED não fosse suficiente para provar a sua qualidade como actriz, este filme é-o com certeza.

1 comentários:

Jackson disse...

Também me deixei levar pela fita de Eastwood, que classifico como dos melhores dramas do ano. Eficaz e comovente!

Abraço