segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Crítica #12

DOUBT, de John Patrick Shanley

Nunca se ouviu falar tanto de pedofilia como nos últimos anos. O escândalo Casa Pia trouxe esta realidade aos olhos dos portugueses, que, ingenuamente, pensam tratar-se de um fenómeno relativamente recente. E a ideia de que "dantes não acontecia nada disto", não podia ser mais errada. A única coisa que mudou foi o facto de o poder da comunicação social ter crescido imensamente nos últimos anos. Para dizer de outra forma: agora estas coisas sabem-se, dantes não se sabiam (ou, se se sabiam, eram sistematicamente abafadas). E o que tem isto tudo a ver com DOUBT? Muito. 

John Patrick Shanley escreveu a peça homónima no qual DOUBT é baseado e é também ele o realizador e o argumentista deste filme. A acção passa-se em 1964, no Bronx, em Nova Iorque e tem como pano de fundo uma escola católica dirigida por freiras. A irmã Aloysius Beauvier (Meryl Streep), a directora da escola, é conhecida pelo seu pulso firme e pelo medo que inspira nos alunos com a sua constante vigilância. Ela tem algumas dúvidas em relação ao padre Brendan Flynn (Philip Seymour Hoffman), achando a forma como ele lida com os alunos do sexo masculino algo suspeita, o que a leva a pedir às restantes freiras que prestem especial atenção ao seu comportamento. A irmã James (Amy Adams), uma jovem e ingénua freira, com um gosto visível pelo ensino, observa a proximidade do padre com Donald Miller (Joseph Foster), o primeiro aluno negro daquela escola. Após relatar as suas suspeitas à directora, esta confronta Flynn com o suposto abuso, algo que ele nega categoricamente, dando mesmo uma explicação plausível para o seu comportamento. Aloysius, no entanto, não se deixa convencer com a explicação do padre, fazendo de tudo para o expulsar daquela escola, inclusivé confrontar Mrs. Miller (Viola Davis), a mãe de Donald, com as suas suspeitas.

A dúvida que dá o título ao filme, marca constantemente a sua presença: a dúvida da directora, a dúvida da jovem freira, a dúvida da mãe do rapaz. Mas a mais marcante dúvida é a nossa, a dos espectadores: nós nunca ficamos a saber se, de facto houve, ou não abuso sexual; se alguns factos apontam nesse sentido, outros apontam na direcção oposta. Apesar de estarem constantemente presentes, as palavras "pedofilia", "abuso sexual", "violação", nunca são proferidas no filme. São como um fantasma, um medo intocável. O que reforça o que eu disse no início deste post: a realidade sempre existiu, mas só recentemente lhe demos um nome. O fantasma saiu do armário, o medo começa a ser tocado. Mas a dúvida persiste; o mais pequeno gesto, por muito inocente que possa parecer (ou mesmo ser) é visto com desconfiança. Por isso mesmo, e apesar de se passar nos anos 60, este filme é de uma proximidade assustadora.

Este filme é daqueles a que se pode chamar "filme de actor". Toda a história, toda a tensão, todo o desenvolvimento da narrativa está centrado nos actores. Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman não fazem nada a que já não nos tenham habituado: são excelentes, como sempre. As surpresas aqui são Amy Adams e Viola Davis, que demonstram (e aqui sem qualquer dúvida) estar ao nível dos "grandes".

DOUBT conta com 5 nomeações para os Óscares: Melhor Actriz (Streep), Melhor Actor Secundário (Seymor Hoffman), 2 na categoria de Melhor Actriz Secundária (Adams e Davis) e Melhor Argumento Adaptado. E merece-as a todas. Sem qualquer dúvida.

1 comentários:

Jackson disse...

Estamos francamente de acordo, é um excelente ensaio sobre o pêndulo Dúvida / Certeza, e conta com interpretações poderosíssimas.

Abraço!