quarta-feira, 18 de março de 2009

Crítica #13


Definição retirada do dicionário da Língua Portuguesa: " Obra-prima- s. f. primor de arte; obra perfeita; a primeira obra do seu género.". GRAN TORINO é um exemplo perfeito da primeira e segunda partes desta definição.

Comecemos pela história do filme. Walt Kowalski (
Clint Eastwood) é um veterano da Guerra da Coreia e funcionário reformado da Ford que vive com a sua cadela Daisy (uma Labrador Retriever) num pequeno bairro no estado do Michigan. Ele não vê com bons olhos o facto de a maioria dos habitantes do bairro serem agora Hmongs, uma etnia do sudeste asiático. Quando o filme começa, estamos no funeral da mulher de Walt e ele não gosta do sermão sem graça do jovem padre Janovich (Christopher Carley) nem do comportamento dos filhos Mitch (Brian Haley) e Steve (Brian Howe), assim como das respectivas famílias, que demonstram uma enorme falta de respeito pela memória da falecida, ficando claro que apenas estão interessados nos bens materiais que Walt lhes poderá um dia deixar. Walt vê-os como sendo mal-educados, mimados e egocêntricos.

Na casa ao lado da de Walt vive uma família Hmong, os Vang Lor, que consiste nos adolescentes Thao (
Bee Vang) e Sue (Ahney Her) assim como na mãe de ambos Vu (Brooke Chia Thao) e na avó (Chee Thao). Thao é constantemente atormentado por um gangue Hmong, liderado pelo seu primo Spider (Doua Moua), que insiste que o jovem se junte a eles. A iniciação consiste em roubar o carro de Walt, um Ford Gran Torino Sport de 1972 (e é o carro que dá o título ao filme). Walt apanha-o no acto e o rapaz foge. O gangue volta a importuná-lo, tentando força-lo mais uma vez a juntar-se a eles, mas Walt afugenta-os com a sua espingarda. Isso faz com que a família Vang Lor fique imensamente grata a Walt e Thao passe a trabalhar para ele. Ao conhecer melhor o rapaz e a família dele, Walt percebe que tem mais em comum com aquelas pessoas do que com a sua própria família, e entre os dois nasce uma improvável, mas muito sincera amizade.
Cada momento do filme, cada fala, cada expressão, cada silêncio, cada imagem são colocados no momento certo, da forma certa, sem a mínima falha. Clint Eastwood, que é também o realizador, tem aqui um dos seus melhores papeis, dando a Walt uma dimensão difícil de superar. É de salientar também que nenhum dos actores Hmongs (com a excepção de Doua Moua) tinha qualquer experiência cinematográfica, o que é surpreendente, tendo em conta as excelentes interpretações de Bee Vang e Ahney Her, dois talentos a manter debaixo de olho.

Sem o mínimo de condescedência pela comunidade Hmong, Eastwood-realizador trata-os com imenso respeito, dando-nos a conhecer a sua cultura e os seus costumes. Como Walt vai observando, estas pessoas têm um enorme respeito pela família, pelos mais velhos, pelos vizinhos e pelo sentido de comunidade. A relação que ele estabelece com Thao e Sue, faz-lhe ver aquilo que realmente é importante e aquilo pelo que vale a pena lutar.


É interessante ver que aqui os "inimigos" não estão nas outras etnias: os filhos e netos de Walt não passam de uns interesseiros, mas a família Hmong demonstra-lhe uma enorme gratidão e respeito; o gangue que atormenta Thao é constituído por jovens Hmongs, mas todas as outras pessoas de outras etnias com quem se vai cruzando tratam-no como um igual. Eastwood parece estar a querer dizer-nos que o respeito pelo próximo não deve residir naquilo que está por fora, mas naquilo que conseguimos ver por dentro quando damos ao trabalho de nos aproximar. O título do filme faz todo o sentido: é o Ford Gran Torino Sport, o típico carro americano, que une todas as personagens, que apesar das suas diferenças são, no fundo, todos americanos. A belíssima cena final do filme está carregada de simbolismo: Thao a conduzir o Gran Torino, que Walt nunca havia emprestado a ninguém. Como disse no início: GRAN TORINO é uma verdadeira obra-prima e, sem dúvida, o melhor filme que vi este ano. Fiquemos com a belíssima música que se ouve durante o genérico final: "
Gran Torino", na voz de Jamie Cullum.

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