quarta-feira, 29 de abril de 2009

Crítica #15



Em primeiro lugar, permitam-me um pequeno desabafo que diz respeito não só a este filme, mas a uma tendência deveras curiosa que tenho vindo a verificar. Tem a ver com a tradução dos títulos dos filmes para português. Como já repararam, no caso específico deste filme, alguém decidiu que a melhor tradução do título seria colocar um travessão à frente do título original e só de seguida a tradução propriamente dita. E a minha pergunta é: porquê? Porque é que quem traduz os títulos acha necessário colocar o título original seguido da tradução, quando haveria duas soluções muito melhores (ou simplesmente não traduziam o título e deixavam o filme com o título original, THE INTERNATIONAL ou chamavam-lhe simplesmente A ORGANIZAÇÃO, o que não lhe tirava qualquer sentido)? Não é a primeira vez que isto acontece, aliás podemos vê-lo com alguns filmes actualmente em exibição nas salas portuguesas: INKHEART- CORAÇÃO DE TINTA (porque não só CORAÇÃO DE TINTA?), LA CAJA- QUATRO MULHERES E UM MORTO (mais uma vez, porque não só a segunda parte do título?) , THIS IS ENGLAND- ISTO É INGLATERRA (será que a primeira parte do título faz falta?) e WATCHMEN- OS GUARDIÕES (aqui até compreendo que apenas OS GUARDIÕES talvez não fosse um título muito apelativo, mas havia outras soluções: A- Deixar apenas o título original, THE WATCHMEN, B- Arranjar uma tradução melhor, o que, admito, talvez não fosse muito fácil). Não é novidade qua a tradução dos títulos de filmes (e livros, já agora) para português deixa, por vezes, bastante a desejar (lembro a tradução de SLUMDOG MILLIONAIRE para QUEM QUER SER BILIONÁRIO?, reconhecendo, no entanto, que se foi esta a tradução do título do livro no qual o filme se baseia, é lógico que seja esta a tradução do título do filme; aqui, ao menos, houve coerência), mas esta solução é a pior, ou se traduz ou não se traduz o título; não me parece que optar por uma solução 50-50 seja o melhor. Não quero, no entanto, generalizar: muitas das vezes o título é bem traduzido. Também não gostaria que interpretassem este meu desabafo como um insulto: trata-se apenas de uma opinião, nada mais que isso. Bem, acabado o desbafo, passemos ao filme.

Louis Salinger (
Clive Owen), um agente da Interpol e Eleanor Whitman (Naomi Watts), uma advogada do equivalente americano ao Ministério Público, já há muito que trabalham em conjunto para derrubar um dos bancos mais poderosos do mundo o IBCC (International Bank of Business and Credit: Banco Internacional de Negócios e Crédito), que está envolvido em várias actividades ilícitas como lavagem de dinheiro, tráfico de armas e destabilização de vários governos. Esta investigação leva-os de Nova Iorque a Berlim, Milão e Instambul. Os responsáveis pelo IBCC não conhecem limites: mandam assassinar Umberto Calvini (Luca Barbareschi) o candidato a primeiro-ministro italiano, detentor de informações explosivas; tentam fazer o mesmo com Whitman; matam o assassino que contrataram para matar Calvini quando Salinger está prestes a apanhá-lo e tentam, por várias vezes, neutralizar Salinger quando se apercebem que ele está cada vez mais perto de os derrubar.

A crise económica que se vive actualmente torna este filme particularmente relevante; a crise existe, em grande parte, devido à corrupção da alta finança que, muitas vezes, se torna incompreensível para os cidadãos comuns, mas tem consequências devastadoras no nosso dinheiro. São os bancos e as mais altas instituições financeiras os principais responsáveis por estarmos no pé em que estamos. E como o filme deixa bem claro, isto nunca terá fim: podemos derrubar um banco, ou o dono de um banco, como Salinger faz com Jonas Skarssen (
Ulrich Thomsen), o dono do IBCC, mas haverá sempre outros.

A dupla protagonista proporciona ao espectador uma interpretação muito convincente: Owen mostra que, de facto, é neste tipo de filmes (Acção/Suspense) que se sente mais à vontade; Watts vem mostrar que há poucos papéis que não consiga fazer. Também os secundários são bastante bons: desde Ulrich Thomsen, no papel do corrupto dono do IBCC; passando por Luca Barbareschi como candidato a primeiro ministro italiano até
Armin Mueller-Stahl como Wilhelm Wexler, um dos colaboradores de Skarssen que procura redenção. Há ainda que destacar a excelente cinematografia de Frank Griebe, a banda sonora de Reinhold Heil, Johnny Klimek e Tom Tykwer, assim como a direcção artística liderada por Kai Koch. A melhor cena é, sem dúvida, o tiroteio no Museu Guggenheim de Nova Iorque (podem ver a cena aqui). Apenas uma crítica: não sei se devido ao argumento ou à montagem, a história torna-se por vezes, difícil de seguir.

Um filme com um conceito interessante, mas que peca por incluir cenas que se tornam confusas e que seriam dispensáveis.

domingo, 12 de abril de 2009

Crítica #14


Um dos grandes desafios do cinema é, na minha opinião, adaptar um livro ao grande ecrã. É necessário manter a fidelidade ao texto mas, ao mesmo tempo, criar algo de novo. Lembro-me de, há já alguns anos, ir ao cinema com uma amiga ver um filme adaptado de um livro que tinha sido um estrondoso sucesso a nível mundial (não vou nomear o livro, mas se calhar já estarão a ter uma ideia...). Eu tinha adorado o livro e gostei bastante do filme; a minha amiga não conhecia a história e não percebeu a razão de tanto sucesso. E eu percebi porquê: o filme foi criado para aqueles que leram o livro, como uma espécie de apêndice ao livro. E não estava mau, mas faltava-lhe ter as pequenas coisas que me fizeram apaixonar pelo livro. E é esse o problema com muitas das adaptações de livros ao cinema: os filmes são feitos tendo em mente aqueles que já conhecem a história, quando deveriam ser feitos para aqueles que não sabem absolutamente nada sobre ela.

E é então que chegamos ao filme de que quero falar. BRIDGE TO TERABITHIA foi adaptado do romance de Katherine Paterson, publicado em 1977. Jess Aarons (Josh Hutcherson) é um rapaz tímido e indaptado, praticamente ignorado pelos pais e constantemente humilhado na escola cujo único refúgio é fazer desenhos em folhas de papel, para os quais ele tem um talento nato. Um dia a escola que Jess frequenta recebe uma aluna nova, Leslie Burke (AnnaSophia Robb), uma rapariga também solitária mas com uma visão optimista da vida e uma enorme imaginação. Vendo em Jess alguém com quem se poderá identificar e admirando o seu talento para o desenho ela decide aproximar-se dele e tentar criar uma relação de amizade. A princípio resistente, Jess acaba por se deixar contagiar com a alegria de Leslie e os dois refugiam-se num cantinho escondido numa pequena floresta que só eles conhecem. Aí imaginam um mundo mágico, Terabithia mundo esse só assecível aos dois e onde enfrentam os desafios da vida real.

À primeira vista, este pode parecer um filmezinho para crianças, um daqueles filmes que os pais acham ser o ideal para levarem os filhos a ver ao cinema. Apesar do principal público alvo ser, de facto, o infanto-juvenil (afinal de contas, é um filme da Disney), BRIDGE TO TERABITHIA vai um pouco mais além. Leva-nos a pensar quando foi que perdemos a capacidade de sonhar, quando foi que perdemos a capacidade de imaginar. A criação de um mundo só deles leva estas duas crianças a ganharem coragem para enfrentar os problemas que os esperam quando de lá saem, eles encontram um no outro a confiança que até aí não tinham.

Eu nunca li o livro no qual este filme se baseia. Na verdade, enquanto estava a ver o filme, nem sequer fazia a menor ideia de que se tratava da adaptação de um livro. E apaixonei-me pelo filme. O que prova o que eu dizia no início deste post: BRIDGE TO TERABITHIA foi feito para aqueles que não conheciam a história, e não falhou. Mesmo sem ter lido o livro, o filme tocou-me profundamente. Chamem-me infantil, chamem-me criança. Não me importo. Esta maravilha do cinema é algo que todas as crianças deviam ver e que só faz bem aos adultos.