quarta-feira, 29 de julho de 2009

Crítica #22

MISS PETTIGREW LIVES FOR A DAY (2008), de Bharat Nalluri

A escritora britânica Winifred Watson publicou MISS PETTIGREW LIVES FOR A DAY (A VIDA NUM SÓ DIA, em português) em 1938, tendo o livro sido um sucesso imediato. Os direitos de autor para o cinema foram adquiridos de imediato, mas com o eclodir da Segunda Guerra Mundial, o filme ficou na prateleira. 70 anos depois o livro foi ressuscitado e o filme finalmente produzido.

A história começa em Londres, pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial. Guinevere Pettigrew (
Frances McDormand) é uma ama de meia idade que acabou de ser despedida de mais um emprego. Sem sítio para onde ir, nem dinheiro para comer ela decide aceitar um emprego como "secretária social" da extravagante cantora e actriz americana Delysia Lafosse (Amy Adams). De repente, Guinevere dá por si a ser arrastada para o mundo da alta sociedade, tentando ajudar Delysia a gerir a sua tumultuosa vida amorosa com três homens diferentes: o apaixonado pianista Michael Pardue (Lee Pace), o rude dono de um clube musical nocturno Nick Cordorelli (Mark Strong) e o jovem e muito infantil empresário Phil Goldman (Tom Payne). A própria Guinevere sente-se bastante atraída pelo charmoso designer de lingerie Joe Bloomfield (Ciarán Hinds), que está noivo da interesseira Edythe DuBarry (Shirley Henderson), a única que parece saber que Guinevere não é propriamente uma "secretária social". Durante 24 horas, Guinevere e Delysia vão ajudar-se mutuamente a descobrir a vida que realmente querem viver.

MISS PETTIGREW LIVES FOR A DAY começa por parecer uma comédia romântica agradável e inconsequente; mas conforme o filme vai avançando, vamo-nos interessando genuinamente por aquelas personagens, que revelam ser muito mais do que "peças" numa comédia sem sentido. Delysia, por exemplo, que de início parece ser apenas uma caricatura de uma jet setter sem inteligência, revela-se um ser humano carregado de complexidade moral. Guinevere, de início apenas com a aparência de uma ama incompetente, revela-se uma mulher cheia de segredos e fantasmas. A bondade de Joe, a paixão genuína de Michael, a arrogância de Nick, a infantilidade de Phil e a crueldade de Edythe também vão aparecendo aos olhos do espectador a pouco e pouco, dando vontade de conhecer todos eles.

A Londres do final dos anos 30 é o cenário perfeito para esta história de aparências e ilusões. A iminência da guerra parece não preocupar os mais jovens, que vêem os fatos anti-bomba como um "desastre da moda"; por outro lado, Guinevere e Joe, que já haviam passado por uma guerra 20 anos antes, percebem que as simulações de bombardeamentos aéreos são mais do que uma brincadeira, mas sim algo que vai mudar a vida de todas aquelas pessoas. O facto de a guerra estar mesmo à vista é uma forma de dizer que toda a felicidade conquistada pode ser efémera e, como tal, é preciso aproveitá-la.

Frances McDormand surpreendeu-me; nunca a tinha visto num papel cómico, mas aqui ela prova que, de facto, consegue ser excelente também na comédia. Amy Adams comprova mais uma vez a sua versatilidade como actriz. O restante casting é também muito acertado, com destaque para Ciarán Hinds.

Quando fingimos ser aquilo que não somos, atraímos quem não queremos. De forma clara e bem-humorada, MISS PETTIGREW LIVES FOR A DAY ensina-nos uma importante lição: só sendo honestos com os outros, poderemos ser honestos connosco mesmos (e vice-versa).

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Crítica #21


Quando pensamos na rainha Victoria, imaginamos uma senhora de idade, baixa, forte, soturna, austera e sempre vestida de preto. Mas a verdade é que ela também foi jovem, bonita e rebelde, um aspecto da sua vida pouco conhecido, que este filme tenta recriar.

Como o próprio título do filme dá a entender, THE YOUNG VICTORIA
(A JOVEM VITÓRIA, em português) mostra-nos a infância e juventude da rainha. Victoria (Emily Blunt) era filha do Príncipe Edward Augustus, Duque de Kent e Strathearn (o quarto filho do rei George III) e da Princesa Victoria de Saxe-Coburg-Saalfeld, Duquesa de Kent e Strathearn (Miranda Richardson). Desde criança que ela sabia o lugar que ocupava na linha de sucessão ao trono e as maquinações políticas a que estava sujeita, tanto por parte do seu tio materno, o rei Leopold I da Bélgica (Thomas Kretschmann), como de Sir John Conroy (Mark Strong), secretário e amigo pessoal da sua mãe. O objectivo de Leopold era conquistar o apoio da Inglaterra, enquanto que o de Conroy era fazer com que Victoria assinasse um documento fazendo da Duquesa de Kent regente e dele próprio o poder por trás do trono. Com o ojectivo de conquistar o apoio da jovem princesa, Leopold envia a Inglaterra os seus sobrinhos Albert (Rupert Friend) e Ernest (Michiel Huisman). Victoria e Albert ficam imediatamente encantados um com outro, casando-se em 1840, quando ela era já rainha. Ele tenta também exercer a sua influência sobre ela, tentando atenuar os efeitos das maquinações de Lord Melbourne (Paul Bettany) e da baronesa Lehzen (Jeanette Hain), ama e confidente de Victoria desde a infância.

Fazer um biopic sobre uma figura história desta relevância é arriscado, principalmente quando a escolha é incidir sobre um período menos conhecido da sua vida. THE YOUNG VICTORIA está muito bem conseguido, tanto na recriação da época, como no cuidado que tem no desenvolvimento das personagens. É interessante a forma como nos consegue dar a ver a mulher por trás da rainha que foi Victoria. A relação de Victoria e Albert é, sem dúvida o foco do filme e nisso o argumento de Julian Fellowes não falhou: a forma como eles se conhecem e se apaixonam é bem apresentada (e, arrisco-me a dizer, muito próxima da realidade); não nos é mostrada à pressa, dando-nos tempo para perceber o porquê de se terem interessado um pelo outro (aliás, o casamento acontece nos últimos 30 minutos do filme). Por tràs de tudo isto, temos as maquinações políticas de várias personalidades relevantes; manipular Victoria enquanto era ainda criança parecia simples e consegui-lo era o passaporte para o poder. Curiosamente, a pessoa por quem Victoria mais se deixou influenciar, foi das poucas que nutriu por ela um sentimento verdadeiro.

O guarda-roupa, a cinematografia, a caracterização e a direcção artística retratam perfeitamente o ambiente da época, dando-nos a entender que Victoria está bem longe de ser a viúva soturna que conhecemos. A banda sonora está excelente, com destaque para a canção que se ouve no genérico final ("
Only You", interpretada por Sinéad O'Connor).
O casting está perfeito, especialmente Emily Blunt e Rupert Friend, perfeitos como Victoria e Albert.

Por tràs de uma rainha há sempre uma mulher. E, modificando o conhecido ditado, ao lado de uma grande mulher há sempre um grande homem. Para além da política e dos interesses, há algo que influenciou ainda mais o tipo de rainha que Victoria foi: o amor.


terça-feira, 21 de julho de 2009

Crítica #20

HARRY POTTER AND THE HALF-BLOOD PRINCE (2009), de David Yates

Um aviso prévio: este post contém spoilers. Por isso, se não viram o filme nem conhecem a história, se calhar será melhor não lerem o que escrevo aqui.

Eu sou, já há alguns anos, uma fã acérrima da saga criada por J.K. Rowling
. Desde que li o primeiro livro fiquei fascinada com o mundo inventado pela escritora. Percebi desde logo que, ao contrário da opinião de algumas pessoas, estes livros não são, de maneira nenhuma, só para crianças. Conforme fui crescendo, fui sabendo apreciar melhor cada um dos livros, que se foram tornando cada vez mais sérios e com um tom cada vez mais negro. Isto é fácil de entender: os protagonistas cresceram, e a sua percepção da realidade tornou-se, também mais "adulta". Em 2001, surgiu o primeiro filme, realizado por Chris Columbus (o mesmo realizador dos dois primeiros SOZINHO EM CASA), um excelente realizador, mas que deu a HARRY POTTER AND THE PHILOSOPHER'S STONE (ou SORCERER'S STONE, nos E.U.A.) um tom de filme familiar que fez dele um filme simpático e agradável, mas não ao nível da genialidade do livro. Foi também Columbus o realizador do segundo filme, HARRY POTTER AND THE CHAMBER OF SECRETS, dando-lhe o mesmo tom que o primeiro. Eis que chegamos a 2004 e ao terceiro filme, HARRY POTTER AND THE PRISONER OF AZKABAN, desta vez com Alfonso Cuarón. A diferença é notória: o filme é mais fiel ao livro e o tom é bastante mais negro, como tem que ser. O quarto filme, HARRY POTTER AND THE GOBLET OF FIRE, foi realizado por Mike Newell, que, apesar de não tão bom como Cuarón, soube adaptar o livro de forma competente. O quinto filme, HARRY POTTER AND THE ORDER OF THE PHOENIX, surgiu pela mão de David Yates, que até fez uma adaptação bastante competente. Apesar das suas diferenças, todos estes filmes têm uma coisa em comum: não conseguem atingir o patamar dos livros. O mundo de Harry Potter é surpreendente, mágico e repleto de detalhes, algo que os cinco primeiros filmes não conseguem concretizar na totalidade. Todos aqueles pormenores que Rowling soube colocar tão bem nos livros, desparecem dos filmes.

Este sexto filme, HARRY POTTER AND THE HALF-BLOOD PRINCE , foi também realizado por Yates, que deixou, definitivamente, o território infantil. Neste filme, Harry (Daniel Radcliffe) tem uma importante missão, que lhe foi confiada por Dumbledore (Michael Gambon): descobrir uma informação vital do passado de Voldemort (interpretado por Hero Fiennes-Tiffin enquanto criança e por Frank Dillane enquanto adolescente), informação detida pelo novo professor de Poções de Hogwarts, Horace Slughorn (Jim Broadbent). Mas Voldemort também confiou a um aluno uma missão: ele escolheu Draco Malfoy (Tom Felton) para ajudar os Deatheaters (Devoradores da Morte, em português) a entrar em Hogwarts e assim matar Dumbledore. Mas além de feiticeiros, as personagens principais são agora adolescentes, e como todos os adolescentes, começam a ser afectados pelas hormonas: Harry começa a apercebe-se dos seus sentimentos por Ginny Weasley (Bonnie Wright) e o mesmo acontece a Hermione (Emma Watson) em relação a Ron (Rupert Grint).

Uma coisa tenho que admitir: desta vez, Yates esforçou-se para tornar o filme um objecto independente do livro, em vez de um apêndice do mesmo. E, ao contrário do que acontecia com os anteriores, este filme é capaz de agradar bastante a quem não leu o livro. Quem leu, no entanto, percebe logo que falta aqui muita coisa. Há pormenores que falta explicar: porque é que Snape (
Alan Rickman) se auto-intitula "Half Blood-Prince", ou príncipe de meio-sangue, em português (e é importante perceber isso para se compreender a personagem)?; quais são as possíveis Horcruxes (informação que Dumbledore dá a Harry no livro e que é crucial para HARRY POTTER AND THE DEATHLY HALLOWS )?; isto só para referir dois. E a que propósito surge a cena no campo de trigo, cena essa que não está no livro e em nada contribui para o avançar da acção? A parte romântica do filme, no entanto, está bastante boa: quem não se lembra de se sentir assim quando era adolescente?

O filme é longo (cerca de duas horas e meia), muito possivelmente para incluir todos os pormenores importantes do livro. Parece-me, no entanto, que teria sido melhor ter sido feito aqui o que vai ser feito com o último livro, ou seja, dividi-lo em dois: conseguiriam ter incluído mais pormenores importantes, teria havido espaço para desenvolver melhor as personagens e, claro, teriam conseguido o dobro do lucro (acreditem, os fãs pagariam dois bilhetes).

Tecnicamente, HARRY POTTER AND THE HALF-BLOOD PRINCE é perfeito: efeitos visuais e sonoros de cortar a respiração, cinematografia irrepreensível e excelente direcção artística. A banda sonora evoluiu em relação aos filmes anteriores, está mais adequada à mudança de tom aqui presente.

Os jovens actores também evoluiram bastante desde o primeiro filme: cresceram, aprenderam e, como têm sensivelmente a mesma idade que as personagens, conseguem encarná-las perfeitamente. Os veteranos são excelentes, neste filme com destaque para Jim Broadbent, impecável no papel de Slughorn.

O filme está longe de ser perfeito, mas vale a pena ser visto. Quem é adolescente conseguirá, certamente, rever-se nestas personagens; quem já o foi, de certeza que vai sentir uma certa saudade.

domingo, 19 de julho de 2009

Crítica #19


O "Acouchement sous X " (literalmente "parto em X", querendo dizer "parto anónimo"), é uma cláusula do Direito francês que permite a uma mulher ter um filho sem ter que se identificar. A mulher entra num estabelecimento de saúde e não precisa de apresentar qualquer tipo de identificação, nem o seu nome é registado em qualquer documento. A criança é entregue para adopção e nunca ficará a saber quem é a mãe. A ideia é proteger a mãe mas, de certa forma, também a criança, uma vez que esta opção poderá ser uma forma de prevenir o aborto ou o infanticídio.

Toda esta temática é importante para este filme. Em BRODEUSES temos a história de Claire Moutiers (Lola Naymark), uma jovem que se encontra grávida de cinco meses e decide fazer uso do tal "accouchement sous X". Torna-se óbvio que não pode contar com a família e o seu emprego no Intermarché começa já a ser demasiado cansativo. Tendo um talento natural para o bordado, ela decide arranjar trabalho com Madame Mélikian (Ariane Ascaride), uma bordadeira profissional que já trabalhou com alguns dos mais conhecidos estilistas franceses. Esta senhora tem também os seus fantasmas: o seu filho e companheiro de profissão morreu recentemente num acidente de mota, deixando-a num profundo estado de depressão. Para completar a ligação, a melhor amiga de Claire, Lucile (Marie Félix), é irmã de Guillaume (Thomas Laroppe), um jovem que ia com o filho de Madame Mélikian na mota e que sobreviveu ao acidente. A relação, de início fria, entre as duas mulheres vai-se transformando com o tempo e elas encontram, tanto nos bordados como uma na outra, um porto de abrigo.

O ritmo deste filme é bastante lento e as falas são curtas. Mas tinha que ser assim, uma vez que BRODEUSES depende quase exclusivamente de uma linguagem corporal; as melhores palavras são aquelas que não são ditas: Claire a mostrar a sua proeminente barriga à mãe (Elisabeth Commelin) e esta a não se aperceber da gravidez da filha; em contraste, Madame Mélikian a perceber que Claire está grávida quando a vê pela primeira vez; a cara queimada de Guillaume, representando o seu sentimento de culpa pela morte do amigo; Madame Mélikian a pegar na mão de Guillaume, como que para o absolver dessa mesma culpa; uma das últimas cenas, em que Claire e Guillaume fazem amor.

Este filme depende pouco de efeitos especiais, mas é perfeito tecnicamente: as lindíssimas paisagens da França rural conferem uma aura intimista à história; a fotografia é perfeita; os cenários, apesar de simples, estão muito bem construídos. A banda sonora é um pouco repetitiva, mas nada de muito grave (gostei bastante da música que se ouve durante o genérico final, "J't'emmène au vent", interpretada pelo grupo francês Louise Attaque) .

O casting é perfeito: a jovem Lola Naymark, que à data de estreia do filme tinha 17 anos, está perfeita no papel da jovem Claire; Ariane Ascaride interpreta Madame Mélikian de forma assombrosa; até Thomas Laroppe consegue dar o tom certo ao atormentado Guillaume.

A vida, tal como um bordado, leva tempo e dá trabalho a ser construída. Ainda bem, pois só assim lhe poderemos dar o devido valor.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Crítica #18


Um filme histórico é sempre um risco. É preciso ser-se fiel à História mas, ao mesmo tempo, fazer com que a intriga seja interessante. Li uma frase de uma escritora de romances históricos que resume bem o que quero dizer: num romance histórico deve usar-se a ficção apenas para preencher aquilo que a História não nos diz.

THE DEVIL'S WHORE
(traduzido literalmente seria A PUTA DO DIABO mas lançado em DVD em Portugal com o título A AMANTE DO DIABO) foi transmitido originalmente como uma minissérie de 4 episódios na estação televisiva britânica Channel 4. A acção passa-se em meados do século XVII, no contexto da Guerra Civil Inglesa. A história é-nos contada sob o ponto de vista de Angelica Fanshawe (Andrea Riseborough), uma aristocrata com uma vida de privilégio. Quando ela era ainda uma criança, a sua extremamente religiosa mãe decide partir para um convento em França. A fúria apodera-se da pequena Angelica que amaldiçoa Deus e nega a sua existência; a partir desse momemto, e durante o resto da sua vida, ela vai tendo visões do Diabo, dando a crer que Deus lhe retribuiu a maldição. Com o passar dos anos, Angelica torna-se numa frequentadora regular da corte de Charles I (Peter Capaldi). No dia do seu casamento com o primo Harry (Ben Aldridge), Angelica é abordada na rua por Elizabeth Lilburne (Maxine Peake), a esposa de John Lilburne (Tom Goodman-Hill), que havia sido preso por distribuir panfletos que punham em causa a honestidade e legitimidade do rei. A partir desse momento, Angelica desperta para um mundo de injustiça e opressão que até aí lhe era completamente estranho e começa a aperceber-se que a sua realidade não é necessariamente a realidade de todos. A Guerra Civil estala e Angelica vai-se cruzando com várias figuras-chave do conflito: desde o futuro Lord Protector Oliver Cromwell (Dominic West), passando pelo idealista Thomas Rainsborough (Michael Fassbender) e pelo ambíguo Edward Sexby (John Simm). 

Longe de ser um documento histórico, THE DEVIL'S WHORE consegue ser um filme histórico bastante plausível. Os acontecimentos históricos mais marcantes são contados com bastante realismo e uma enorme atenção aos detalhes. 

Depois de derrubar o rei, Cromwell decide tomar o país para si, tornado-se igual àquilo que quis destruir. Vemos que o poder e o dinheiro falam mais alto que a consciência: quando Cromwell sobe ao poder, muitos dos que estavam do lado do rei, passam a obedecer cegamente ao agora líder. Lilburne e Rainsborough, pelo contrário, acreditam na igualdade entre os cidadãos ingleses, achando que a riqueza deveria ser distribuida igualmente por todos, uma utopia que muitos na época tentaram concretizar ao partir para o Novo Mundo, a América, a verdadeira Terra Prometida (que, aliás, é referida várias vezes). Temos também um retrato da condição da mulher na Inglaterra do século XVII, que era vista como alguém que tem que estar ao serviço dos homens em tudo (fosse na cozinha ou na cama): quando Angelica mata um homem que a queria violar, passa a ser conhecida como a "devil's whore" do título, uma mulher promíscua e maléfica (nessa altura, as suas visões do diabo são referidas como prova destas acusações).

Tecnicamente, o filme é perfeito: desde a fotografia, que capta de forma impressionante o ambiente soturno da época; passando pelo guarda-roupa, a montagem e os cenários. Também a banda sonora é excelente. 

O casting é bastante acertado: Andrea Riseborough, Dominic West, Tom Goodman-Hill e Michael Fassbender estão muito bons nos seus papéis. Mas o destaque vai, sem dúvida, para John Simm; ele retrata a sua personagem de forma impecável, num misto de coragem, paixão e culpa.

Nas suas 3 horas de duração, THE DEVIL'S WHORE ensina-nos uma importante lição sobre o poder e a ambição: é mais fácil do que parece imitarmos os tiranos que detestamos. República ou monarquia, ambas estão sujeitas a serem corrompidas pela falta de consciência.