domingo, 19 de julho de 2009

Crítica #19


O "Acouchement sous X " (literalmente "parto em X", querendo dizer "parto anónimo"), é uma cláusula do Direito francês que permite a uma mulher ter um filho sem ter que se identificar. A mulher entra num estabelecimento de saúde e não precisa de apresentar qualquer tipo de identificação, nem o seu nome é registado em qualquer documento. A criança é entregue para adopção e nunca ficará a saber quem é a mãe. A ideia é proteger a mãe mas, de certa forma, também a criança, uma vez que esta opção poderá ser uma forma de prevenir o aborto ou o infanticídio.

Toda esta temática é importante para este filme. Em BRODEUSES temos a história de Claire Moutiers (Lola Naymark), uma jovem que se encontra grávida de cinco meses e decide fazer uso do tal "accouchement sous X". Torna-se óbvio que não pode contar com a família e o seu emprego no Intermarché começa já a ser demasiado cansativo. Tendo um talento natural para o bordado, ela decide arranjar trabalho com Madame Mélikian (Ariane Ascaride), uma bordadeira profissional que já trabalhou com alguns dos mais conhecidos estilistas franceses. Esta senhora tem também os seus fantasmas: o seu filho e companheiro de profissão morreu recentemente num acidente de mota, deixando-a num profundo estado de depressão. Para completar a ligação, a melhor amiga de Claire, Lucile (Marie Félix), é irmã de Guillaume (Thomas Laroppe), um jovem que ia com o filho de Madame Mélikian na mota e que sobreviveu ao acidente. A relação, de início fria, entre as duas mulheres vai-se transformando com o tempo e elas encontram, tanto nos bordados como uma na outra, um porto de abrigo.

O ritmo deste filme é bastante lento e as falas são curtas. Mas tinha que ser assim, uma vez que BRODEUSES depende quase exclusivamente de uma linguagem corporal; as melhores palavras são aquelas que não são ditas: Claire a mostrar a sua proeminente barriga à mãe (Elisabeth Commelin) e esta a não se aperceber da gravidez da filha; em contraste, Madame Mélikian a perceber que Claire está grávida quando a vê pela primeira vez; a cara queimada de Guillaume, representando o seu sentimento de culpa pela morte do amigo; Madame Mélikian a pegar na mão de Guillaume, como que para o absolver dessa mesma culpa; uma das últimas cenas, em que Claire e Guillaume fazem amor.

Este filme depende pouco de efeitos especiais, mas é perfeito tecnicamente: as lindíssimas paisagens da França rural conferem uma aura intimista à história; a fotografia é perfeita; os cenários, apesar de simples, estão muito bem construídos. A banda sonora é um pouco repetitiva, mas nada de muito grave (gostei bastante da música que se ouve durante o genérico final, "J't'emmène au vent", interpretada pelo grupo francês Louise Attaque) .

O casting é perfeito: a jovem Lola Naymark, que à data de estreia do filme tinha 17 anos, está perfeita no papel da jovem Claire; Ariane Ascaride interpreta Madame Mélikian de forma assombrosa; até Thomas Laroppe consegue dar o tom certo ao atormentado Guillaume.

A vida, tal como um bordado, leva tempo e dá trabalho a ser construída. Ainda bem, pois só assim lhe poderemos dar o devido valor.

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