quarta-feira, 1 de julho de 2009

Crítica #18


Um filme histórico é sempre um risco. É preciso ser-se fiel à História mas, ao mesmo tempo, fazer com que a intriga seja interessante. Li uma frase de uma escritora de romances históricos que resume bem o que quero dizer: num romance histórico deve usar-se a ficção apenas para preencher aquilo que a História não nos diz.

THE DEVIL'S WHORE
(traduzido literalmente seria A PUTA DO DIABO mas lançado em DVD em Portugal com o título A AMANTE DO DIABO) foi transmitido originalmente como uma minissérie de 4 episódios na estação televisiva britânica Channel 4. A acção passa-se em meados do século XVII, no contexto da Guerra Civil Inglesa. A história é-nos contada sob o ponto de vista de Angelica Fanshawe (Andrea Riseborough), uma aristocrata com uma vida de privilégio. Quando ela era ainda uma criança, a sua extremamente religiosa mãe decide partir para um convento em França. A fúria apodera-se da pequena Angelica que amaldiçoa Deus e nega a sua existência; a partir desse momemto, e durante o resto da sua vida, ela vai tendo visões do Diabo, dando a crer que Deus lhe retribuiu a maldição. Com o passar dos anos, Angelica torna-se numa frequentadora regular da corte de Charles I (Peter Capaldi). No dia do seu casamento com o primo Harry (Ben Aldridge), Angelica é abordada na rua por Elizabeth Lilburne (Maxine Peake), a esposa de John Lilburne (Tom Goodman-Hill), que havia sido preso por distribuir panfletos que punham em causa a honestidade e legitimidade do rei. A partir desse momento, Angelica desperta para um mundo de injustiça e opressão que até aí lhe era completamente estranho e começa a aperceber-se que a sua realidade não é necessariamente a realidade de todos. A Guerra Civil estala e Angelica vai-se cruzando com várias figuras-chave do conflito: desde o futuro Lord Protector Oliver Cromwell (Dominic West), passando pelo idealista Thomas Rainsborough (Michael Fassbender) e pelo ambíguo Edward Sexby (John Simm). 

Longe de ser um documento histórico, THE DEVIL'S WHORE consegue ser um filme histórico bastante plausível. Os acontecimentos históricos mais marcantes são contados com bastante realismo e uma enorme atenção aos detalhes. 

Depois de derrubar o rei, Cromwell decide tomar o país para si, tornado-se igual àquilo que quis destruir. Vemos que o poder e o dinheiro falam mais alto que a consciência: quando Cromwell sobe ao poder, muitos dos que estavam do lado do rei, passam a obedecer cegamente ao agora líder. Lilburne e Rainsborough, pelo contrário, acreditam na igualdade entre os cidadãos ingleses, achando que a riqueza deveria ser distribuida igualmente por todos, uma utopia que muitos na época tentaram concretizar ao partir para o Novo Mundo, a América, a verdadeira Terra Prometida (que, aliás, é referida várias vezes). Temos também um retrato da condição da mulher na Inglaterra do século XVII, que era vista como alguém que tem que estar ao serviço dos homens em tudo (fosse na cozinha ou na cama): quando Angelica mata um homem que a queria violar, passa a ser conhecida como a "devil's whore" do título, uma mulher promíscua e maléfica (nessa altura, as suas visões do diabo são referidas como prova destas acusações).

Tecnicamente, o filme é perfeito: desde a fotografia, que capta de forma impressionante o ambiente soturno da época; passando pelo guarda-roupa, a montagem e os cenários. Também a banda sonora é excelente. 

O casting é bastante acertado: Andrea Riseborough, Dominic West, Tom Goodman-Hill e Michael Fassbender estão muito bons nos seus papéis. Mas o destaque vai, sem dúvida, para John Simm; ele retrata a sua personagem de forma impecável, num misto de coragem, paixão e culpa.

Nas suas 3 horas de duração, THE DEVIL'S WHORE ensina-nos uma importante lição sobre o poder e a ambição: é mais fácil do que parece imitarmos os tiranos que detestamos. República ou monarquia, ambas estão sujeitas a serem corrompidas pela falta de consciência.

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