segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Crítica #24


 A música pode ser o exemplo único do que poderia ter sido - se não tivesse havido a invenção da linguagem, a formação das palavras, a análise das ideias - a comunicação das almas.
Marcel Proust

É precisamente sobre a música e a forma como ela nos toca a alma que NICK AND NORAH'S INFINITE PLAYLIST (NICK E NORAH: PLAYLIST INFINITA, em português) se debruça. O filme é baseado no livro homónimo dos escritores norte-americanos Rachel Cohn e David Levithan. Nick (Michael Cera) é um adolescente que vive em Hoboken, New Jersey e está inconsolável após o final da relação com a namorada, Tris (Alexis Dziena); ele não percebe porque é que ela decidiu pôr fim à relação e deixa-lhe obsessivamente mensagens no voice-mail. Norah (Kat Dennings), a filha do famoso dono de uma editora discográfica, e a sua melhor amiga, Caroline (Ari Graynor), andam na mesma escola que Tris. Norah e Tris não se suportam, pois enquanto que Norah é inteligente e motivada, Tris é uma menina mimada, que usa as pessoas conforme as suas necessidades. Na noite em que a acção do filme começa, todas estas personagens encontram-se num bar em Manhattan, onde a banda de que Nick faz parte, os Jerk-Offs, estão a tocar. Uma série de mal-entendidos fazem com que Nick e Norah, assim como uma muito bêbada Caroline e os restantes membros dos Jerk-Offs, Thom (Aaron Yoo) e Dev (Rafi Gavron), percorram a cidade em busca do local onde os Where's Fluffy, uma mítica banda rock, vão tocar. Com todas as experiências loucas que vivem naquela noite, Nick e Norah descobrem que têm muito em comum, a começar pelos gostos musicais.

Se dúvidas houvesse que Nova Iorque é, de facto, "the city that never sleeps" (a cidade que nunca dorme), este filme eliminá-las-ia. Efectivamente, Nova Iorque é uma das personagens do filme, com a sua vivacidade, o seu constante movimento e o frenesim imparável. A oportunidade para Nick e Norah se conhecerem não faria grande sentido noutro local. O que os une é, sem dúvida, a música. Logo no início do filme, é referido que Norah já demonstrava interesse em Nick mesmo antes de o conhecer: ela recuperava do caixote do lixo os CD's que ele gravava para Tris. Nick fica encantado quando Norah o leva ao estúdio de gravação do pai, admirando a História que o mesmo contém. Eles falam através da música, comunicam através da música e, se virmos bem, é através da busca de uma banda lendária que se descobrem um ao outro.

Tal como se passa com as personagens, é em grande parte através da música que o filme comunica connosco, os espectadores. A escolha das músicas que dão corpo à bamda sonora não podia ser melhor. A realização de Peter Sollett
é bastante competente, havendo planos bastante interessantes. A cinematografia é também boa, mostrando as "trevas" e a "luz" de Nova Iorque (e, paralelamente, as das vidas de Nick e Norah).

Surpreendentemente, a química entre Michael Cera e Kat Dennings é muito boa: eles formam um par romântico bastante credível. É de destacar também Aaron Yoo e Rafi Gavron, hilariantes como Thom e Dev.

A música, tal como toda a arte, tem o poder de tocar a alma de um ser humano. Se pudermos encontrar alguém com uma alma igual à nossa, tanto melhor. NICK AND NORAH'S INFINITE PLAYLIST evoca, de forma admirável, a descoberta do amor.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Crítica #23

LIVES OF THE SAINTS (2004), de Jerry Ciccoritti

As sagas familiares não são propriamente uma novidade, tanto na literatura, como no cinema. Normalmente, têm bastante sucesso e é fácil perceber porquê: a evolução de uma família ao longo do tempo, o choque de gerações e costumes e a relação conflituosa entre os membros dessa mesma família são algo com que todos, de uma forma ou de outra, nos podemos identificar. 

LIVES OF THE SAINTS (estranhamente traduzido para português como ANJOS TRAÍDOS) é baseado na trilogia de romances do escritor italo-canadiano Nino Ricci (LIVES OF THE SAINTS, IN A GLASS HOUSE e WHERE SHE HAS GONE). Foi originalmente exibido no Canadá em 2004, como uma minissérie de 2 episódios. A história foca-se em Vittorio Innocente (interpretado enquanto criança por Flavio Pacilli, enquanto adolescente por Joseph Marrese e enquanto adulto por Fab Filippo) desde a sua infância na pequena aldeia italiana de Valle del Sole nos anos 50, até à idade adulta no Canadá nos anos 60 e 70. Quando era criança, Vittorio vê a sua mãe, Cristina (Sabrina Ferilli), ser ostracizada pelos habitantes da aldeia devido a uma gravidez resultante de uma relação fora do casamento. Ele próprio é vítima de olhares mesquinhos e da violência dos colegas de escola, sendo protegido pela sua professora e tia Teresa (Sophia Loren), uma mulher conservadora que não perdoa Cristina pelo que ela está a fazer à sua família. Pouco antes da criança nascer, Cristina decide partir com o filho para o Canadá, com o pretexto de ir ter com o marido, Mario (Nick Mancuso), que havia emigrado há já alguns anos, mas com a intenção de se ir encontrar com o pai da criança que carrega. No barco que os levaria até ao destino, Cristina morre ao dar à luz, deixando Vittorio e a menina que entretanto nasceu, Rita (interpretada enquanto criança por Ashley Yusupov e enquanto adulta por Jessica Paré), entregues a Mario, que odeia a menina, principalmente devido à sua semelhança física com Cristina. A forma como esta família lida com a "bastarda", como lhe chamam, e o desejo de vingança de Mario que Vittorio também adquire, tornam-se parte central da história.

Mesmo sem ter lido a trilogia de romances que deu a origem a este filme, consigo notar alguns problemas na adaptação, sendo o principal o condensar de três livros em dois episódios. Há alguns pormenores da história que deviam estar melhor desenvolvidos.

Outra coisa que me incomoda é a utilização da língua inglesa quando as personagens deviam falar italiano; pior que isso, o facto de ser utilizado um inglês com um sotaque italiano forçado. O domínio do italiano por parte dos actores não era problema; ouvimos a língua a ser falada várias vezes. Parece-me que esta escolha retira a LIVES OF THE SAINTS uma certa autenticidade.

Um outro aspecto que me desegrada é o final, na minha opinião mais melodramático que o necessário.

O retrato da comunidade italiana no Canadá está bastante bem apresentado, mostrando como aquelas pessoas nunca se integram totalmente, nem esquecem as suas raízes. A cinematografia é bastante competente, especialmente a da parte da história passada na Itália. A banda sonora é adequada à história, oscilando entre a clássica música italiana e os ritmos pop anglófonos dos anos 60 e 70.

Quando ao elenco é de destacar, como parece lógico, o excelente desempenho de Sophia Loren, que consegue interpretar a atormentada Teresa de forma magistral. É também digna de nota Jessica Paré, que consegue dar a Rita uma aura bem interessante.

Um filme longe de ser perfeito, mas que vale a pena ver. Afinal de contas, apesar das diferenças culturais incontornáveis, uma família acaba por ser igual em qualquer parte do mundo.