terça-feira, 15 de setembro de 2009

Crítica #25

INGLOURIOUS BASTERDS (2009), de Quentin Tarantino

É difícil classificar este filme. Será um drama, uma comédia, um filme de suspense ou de acção? Tarantino oscila entre um e outros, sem nunca se comprometer só com um. Mas vamos por partes.

A acção de INGLOURIOUS BASTERDS inicia-se em 1941, na França ocupada pelas forças nazis. Shosanna Dreyfus (Mélanie Laurent), uma jovem judia, vê a sua família ser morta por oficiais nazis, comandados pelo cruel Coronel Hans Landa (Christoph Waltz). Ela é a única sobrevivente. Entretanto, os "Sacanas" que dão o título ao filme estão a ser formados: trata-se de um grupo de soldados judeus norte-americanos, comandados pelo Tenente Aldo Raine (Brad Pitt), cujo objectivo é matar o maior número de soldados nazis possível. Três anos depois vemos Shosanna em Paris com uma nova identidade; ela é agora a dona de uma sala cinema, onde trabalha com o seu namorado, Marcel (Jacky Ido). Ela vê a oportunidade perfeita para se vingar quando o realizador alemão Joseph Goebbels (Sylvester Groth) decide aí estrear o seu novo filme. O plano é simples: pegar fogo ao local com a elite nazi lá dentro. Ao mesmo tempo, os "Sacanas", com a colaboração do Tenente Archie Hicox (Michael Fassbender), um oficial britânico e especialista no cinema do Terceiro Reich e da actriz e espia alemã Bridget von Hammersmark (Diane Kruger), têm um plano semelhante: colocar explosivos na sala de cinema para matar os oficiais nazis que estarão presentes na estreia, incluindo Hitler (Martin Wuttke). Os dois planos, que funcionam de forma independente, vão inevitavelmente convergir.

Como disse no início do post, é difícil enquadrar INGLOURIOUS BASTERDS num único genéro, pois vemos aqui de tudo: drama (praticamente todas as cenas com Shosanna), comédia (a cena em que quatro dos "Sacanas", quando confrontados por Landa, tentam falar italiano), suspense (a tensão que se vai acumulando ao longo do filme quanto ao resultado dos planos de Shosanna e dos "Sacanas") e acção (a última cena a ter lugar no cinema). E o que é espantoso é que todas essas vertentes resultam muito bem na história.

INGLOURIOUS BASTERDS reflecte, com bastante cuidado, sobre o poder da linguagem verbal (por exemplo, a cena inicial), corporal (a cena no bar e o pormenor que denuncia o Tenente Hicox) e imagética (o papel do cinema como veículo de transmissão de ideias; as suásticas que os "Sacanas" cravam na testa dos soldados nazis). Não é por acaso que Tarantino decidiu (e muito bem) pôr as personagens a falar as línguas que lhes correspondem (os franceses falam francês, os alemães falam alemão, os norte-americanos falam inglês com um sotaque norte-americano, os britânicos falam inglês com um sotaque britânico), ao contrário do acontece em outros filmes, onde vemos personagens de outras nacionalidades a falar inglês com um sotaque forçado.

Ao mesmo tempo, vemos aqui uma reflexão sobre a dualidade vingança/justiça. O plano de Shosanna para matar os oficiais nazis é vingança pela morte da sua família (ela prória diz "Este é o rosto da vingança judaica!") ou justiça? Ou será que as duas coisas são indissociáveis? E como interpretar a cena final: justiça poética ou vingança sádica?

Tecnicamente nada há a apontar: cinematografia, direcção artística, efeitos especiais, está tudo perfeito e no lugar certo. A banda sonora é tipicamente "à Tarantino" e bastante peculiar para um filme do género, mas resulta bem.

Quanto ao casting, gostei das escolhas. Não há dúvida que Brad Pitt é infinitamente melhor em papéis cómicos do que em papéis dramáticos e o seu Aldo Raine é o exemplo disso. Os restantes intérpretes dos "Sacanas" têm também interpretações muito boas. Os destaques vão, no entanto, para duas interpretações: Mélanie Laurent, que interpreta magistralmente a atormentada Shosanna e Christoph Waltz, que incorpora de forma assombrosa o sádico e traiçoeiro Coronel Landa (é raro ver um actor que domine tão bem como Waltz quatro línguas diferentes: vêmo-lo a falar alemão, inglês, francês e italiano com um enorme à vontade). Iria mesmo ao ponto de dizer que a interpretação de Waltz é merecedora de um Óscar (já lhe valeu o prémio de Melhor Actor no Festival de Cannes deste ano).

INGLOURIOUS BASTERDS é, sem dúvida, um filme que diz tudo aquilo que quer dizer sem deixar nada de fora. Está tudo onde tem que estar e no final fica-se com a sensação de objectivo cumprido. Para mim, é um dos melhores filmes do ano.

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