sábado, 30 de janeiro de 2010

Crítica #29

UP IN THE AIR (2009), de Jason Reitman

Jason Reitman começou a escrever o argumento de UP IN THE AIR em 2002, numa época em que a economia mundial estava em alta. Tivesse o filme sido feito nessa altura e teria tido um tom completamente diferente. Na actual conjuntura económica, faz muito mais sentido.

O trabalho de Ryan Bingham (
George Clooney) consiste em despedir pessoas. Ele passa a vida em aviões, viajando para várias cidades americanas e sendo pago para fazer aquilo que os patrões não têm coragem. Numa dessas muitas viagens conhece Alex Goran (Vera Farmiga), uma viajante frequente com um estilo de vida muito semelhante ao dele; imediatamente inicia com ela uma relação casual, feita de encontros nas várias cidades onde vão ficando. O patrão de Ryan, Craig Gregory (Jason Bateman), decide modernizar o negócio e aceita a sugestão da jovem executiva Natalie Keener (Anna Kendrick), que consiste em despedir pessoas via webcam. Com o objectivo de mostrar a Natalie as realidades da profissão, Ryan decide levá-la consigo para as várias cidades para onde vai.

UP IN THE AIR é um filme interessantíssimo sobre as aparências e as mentiras que contamos (aos outros e a nós mesmos). Ryan diz gostar do estilo de vida solitário que leva, mas é óbvio que está a tentar convencer-se a ele próprio disso. As conferências que vai dando e a metáfora da mochila que utiliza dão para perceber que ele próprio não leva na bagagem aquilo de que realmente precisa. Natalie põe a máscara de mulher dura e profissional, mas quando o namorado acaba a relação por sms (ironia cruel) ela mostra-se completamente e revela-se alguém que quer construir mais do que uma carreira. De Alex não sabemos nada durante quase todo o filme; ela vai conquistando Ryan, vai fazendo com que ele comece a transportar na sua bagagem aquilo que vale a pena, até que no final lhe dá a desilusão suprema.

A insensibilidade e falta de calor humano da América empresarial estão aqui bem demonstrados: Ryan acha que, apesar dos dicursos ensaiados que dá àqueles que despede, há uma certa dignidade em fazê-lo cara a cara; Natalie quer cortar despesas e modernizar o sector, para no final sentir a culpa que advém das consequências daquilo que faz. As pessoas que ambos despedem são desempregados fora do filme, dando, por isso, um maior realismo às cenas.

Este é um dos melhores papéis que já vi George Clooney fazer; ele interpreta esta personagem com as doses certas de arrogância e vulnerabilidade. Vera Farmiga tem uma interpretação muito interessante de uma personagem moralmente ambígua, mas que acabamos por conseguir, de certa forma, compreender. A revelação é, sem dúvida, Anna Kendrick, que nos dá aqui uma das melhores interpretações do ano: a jovem idealista que aprende com a experiência (profissional e pessoal).

Todos nós, em maior ou menor grau, mostrámos ao mundo uma versão menos verdadeira de nós próprios. Talvez porque, se fizermos os outros acreditar na mentira, consigámos nós próprios começar a fazê-lo. Como Ryan diz a uma dada altura, de toda a bagagem que carregámos, a melhor é a que partilhámos com os que nos rodeiam.


quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Crítica #28


James Cameron não faz muitos filmes, mas quando faz, é impossível não se reparar. AVATAR já é o segundo filme que mais dinheiro rendeu na história do cinema e prevê-se que não demore muito a atingir o topo, ultrapassando um outro filme do realizador, TITANIC.

A história de AVATAR passa-se no ano de 2154, num planeta chamado Pandora. Uma empresa norte-americana está já há anos a estudar a biosfera do planeta, e se há aqueles cujo interesse em Pandora é puramente científico, há outros que pretendem extrair de lá um mineral valiosíssimo, nem que para isso tenham que expulsar os seres humanóides que lá vivem. Os nativos de Pandora, os Na'vi, são mais altos que os humanos, têm uma fisionomia com características felinas, têm uma cauda e são azuis. A atmosfera de Pandora é tóxica para os humanos, de maneira que, para que estes o possam explorar livremente são criados corpos com a fisionomia de um Na'vi mas com ADN humano, os avatares do título. Estes corpos são mental e fisicamente controlados pelo humano equivalente. Jake Sully (
Sam Worthington) é um ex-marine paraplégico que vai substituir o falecido irmão gémeo no programa avatar. Como o seu ADN é idêntico ao do irmão ele conseguirá controlar o avatar que lhe corresponde. A sua função é simplesmente servir de "guarda-costas" à Dra. Grace Augustine (Sigourney Weaver), uma cientista que estuda a cultura Na'vi já há vários anos e ao biólogo Norm Spellman (Joel Moore). No entanto, sem o conhecimento destes, ele serve também de espião ao Coronel Miles Quaritch (Stephen Lang), o líder das forças de segurança. Na sua primeira missão nas florestas de Pandora, Jake perde-se e é salvo por Neytiri (Zoe Saldana), uma Na'vi. De início desconfiados, os Na'vi decidem acolhê-lo na sua tribo e explicar-lhe o seu modo de vida. Apesar de fornecer a Quaritch várias informações estratégicas, Jake começa a perceber melhor os Na'vi e a identificar-se com o seu modo de vida, apaixonando-se por Neytiri. Quando as forças comandadas por Quaritch começam a destruir o planeta, cabe-lhe a ele liderar os Na'vi.

Visualmente, AVATAR é de cortar a respiração (e nem seria necessário o 3D). As deslumbrantes paisagens de Pandora devem ser das imagens mais belas que foram vistas em cinema. Aliás, grande parte do filme é passada a mostrá-las ao espectador, a fazer com que queiramos lá estar e que, no final, queiramos entrar na batalha para as proteger.

Narrativamente, AVATAR poderá não ser muito original (assim, de repente, vem-me à cabeça
POCAHONTAS ) mas, se pensarmos bem, muito poucas histórias são 100% originais. É verdade que James Cameron vai buscar muitos elementos da história a outras histórias, mas a forma como os apresenta é tão cativante, tão sedutora, que depressa isso se torna irrelevante.

A técnica de "motion capture" atinge aqui um ponto alto mostrando-se muito eficaz: por exemplo, nós nunca vemos Zoe Saldana fisicamente presente, mas vêmo-la a representar, a passar emoções através de Neytiri. As personagens são muito interessantes; é-lhes dada a profundidade exigida e conseguimos identificar-nos com a maior parte delas.

O casting é também muito positivo, tendo sido escolhidos os actores certos para as respectivas personagens.

O único ponto negativo de AVATAR, na minha opinião, é a banda-sonora que, apesar de cumprir a sua função, não é brilhante.

A mensagem de AVATAR é extremamente relevante para os dias de hoje. O respeito pelo nosso mundo deve sempre ser superior à ganância. Os Na'vi vivem em comunhão com a natureza, respeitam-na, vêem-na como é preciso ser vista. Como Jake aprende, por vezes basta olhar com olhos de ver para se perceber aquilo que é importante.

Não sei dizer se este filme entrará na lista dos meus preferidos; só daqui a algum tempo saberei se ainda o sinto da mesma maneira (afinal de contas, há treze anos atràs fiquei fascinada com TITANIC e agora não consta na lista dos meus preferidos). Mas para já, neste momento, posso dizer que AVATAR foi uma das melhores experiências cinematográficas da minha vida.


terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Crítica #27

SHERLOCK HOLMES (2009), de Guy Ritchie

Arthur Conan Doyle publicou o romance A STUDY IN SCARLET, a primeira aventura de Sherlock Holmes, em 1887. O título deriva de uma frase dita por Sherlock Holmes a Watson: "There’s the scarlet thread of murder running through the colourless skein of life, and our duty is to unravel it, and isolate it, and expose every inch of it." A personagem não atraiu de imediato o interesse de que seria alvo mais tarde, mas despertou alguma curiosidade. Sherlock Holmes é conhecido como o detective que resolve qualquer mistério recorrendo a nada mais do que o raciocinio lógico. Foi essa a novidade e é essa característica que atrai, ainda hoje, milhões de fãs.

A acção deste filme passa-se em Londres, no ano de 1891. Sherlock Holmes (Robert Downey Jr.) e o seu companheiro, o Dr. John Watson (Jude Law), conseguem impedir o homicidio de uma jovem baseado em rituais de magia negra. Lord Blackwood (Mark Strong), o assassino, já havia completado o ritual com sucesso várias vezes. A polícia londrina, liderada pelo Inspector Lestrade (Eddie Marsan), chega a tempo de prender Blackwood, que seria mais tarde condenado à morte por enforcamento. No entanto, ele consegue forjar a sua própria morte e por em práctica um plano que lhe permitiria dominar o parlamento e todo o país. Além de ter que impedir Blackwood de concretizar o seu plano, Holmes tem ainda que lidar com a sedutora Irene Adler (Rachel McAdams), uma criminosa com quem já se havia cruzado várias vezes e que trabalha para um misterioso homem, mais tarde identificado como o Professor Moriarty, um dos mais notórios antagonistas de Holmes nas histórias de Conan Doyle.
Este filme tem sido alvo de várias críticas, sendo a mais notória a que diz respeito à não-fidelidade às histórias de Conan Doyle. Nunca li nenhum dos livros, mas parece-me que, quando se adapta uma obra literária ao cinema, há sempre uma certa liberdade artística, que permite fazer determinadas alterações às personagens. Se é verdade que este Holmes entra em lutas de boxe por dinheiro, evita explosões e é desarrumado e mulherengo, é também verdade que as principais características da personagem estão lá presentes: o raciocínio lógico, a atenção prestada aos pequenos pormenores, a aversão a tudo o que não possa ser comprovado cientificamente. Houve aqui uma clara tentativa de modernizar a personagem, e parece-me que isso foi conseguido.

A química entre o Holmes de Robert Downey Jr. e o Watson de Jude Law é o ponto forte do filme: Watson exaspera-se com as excentricidades de Holmes, mas não consegue resistir à sua energia contagiante; Holmes tenta dar a entender que não precisa de Watson, mas está constantemente a tentar "sugá-lo" para a sua vida desregrada. Mark Strong interpreta um vilão digno de qualquer filme de terror; este é, aliás, o quarto vilão que o vejo interpretar, tendo os outros sido em MISS PETTIGREW LIVES FOR A DAY, BODY OF LIES e THE YOUNG VICTORIA . Parece-me que a a Irene Adler de Rachel McAdams é subaproveitada; a personagem poderia ter sido mais proeminente. Chamo ainda a atenção para a banda sonora, da autoria de Hans Zimmer, que está bem de acordo com o ritmo do filme.

SHERLOCK HOLMES não pretende ser uma obra-prima, nem um filme de elevada qualidade, mas sim um produto de entretenimento, um filme que permite ao espectador passar duas horas bem passadas. E, nesse aspecto é, na minha opinião, muito bem sucedido.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Crítica #26


Eu fui adolescente nos anos 90 e lembro-me muito bem de ver a importância que as minhas amigas davam ao facto de terem sapatilhas e calças da marca X ou relógios da marca Y. Lembro-me também os olhares maldosos de que era vítima por não dar qualquer importância à marca da roupa que vestia, não porque não tivesse dinheiro para a comprar, mas porque simplesmente não me parecia essencial. Mesmo hoje, não dou importância à moda: tendo que escolher entre o conforto e a marca, opto sempre pelo conforto. THE DEVIL WEARS PRADA tem tudo a ver com a moda, com a importância dada à moda, com aquilo que algumas pessoas estão dispostas a fazer para serem alguém no mundo da moda.

Andrea "Andy" Sachs (Anne Hathaway
) uma aspirante a jornalista recém-licenciada consegue um emprego que "milhões de raparigas matariam para ter": o de assistente pessoal de Miranda Priestly (Meryl Streep), a editora da revista de moda Runway, uma mulher fria e exigente que domina o mundo da moda. Andy decide suportar as ridículas e excêntricas ordens da chefe, pois sabe que, se conseguir aguentar pelo menos um ano na Runway conseguirá arranjar o emprego que realmente quer. De início, ela tem alguma dificuldade em adaptar-se devido à sua inexperiência e à sua "falta de estilo", sendo vítima do gozo dos colegas, nomeadamente da outra assistente de Miranda, Emily Chalton (Emily Blunt). Decidida a aguentar o que for preciso, Andy pede ajuda para mudar de imagem a Nigel (Stanley Tucci), o director artístico da revista e o único em quem ela sente que pode confiar. Com o novo visual Andy conquista o respeito de Miranda (ou, pelo menos, o respeito que Miranda é capaz de lhe dar) e começa a compreender o mundo da moda, o que tem consequências na sua vida pessoal, nomeadamente na sua relação com o namorado, Nate (Adrian Grenier), e os amigos Lily (Tracie Thoms) e Doug (Rich Sommer).

A competitividade do mundo da moda e os seus extremos estão aqui bem presentes. Quando Andy começa a subir, o seu sentido de ética começa a alterar-se e ela começa a perceber que há certas partes de si que tem que deixar para trás. O importante não é o que se é, mas aquilo que se parece ser: note-se a cena em que Miranda deixa, por momentos, cair a máscara, e mostra a Andy a sua vulnerabilidade; contrasta-se com a atitude fria e controlada que demonstra em público. Note-se também o momento em que Nigel explica a Andy a importância que o mundo da moda e a Runway em específico tiveram na sua vida. E também a cena em que Emily está no hospital e faz Andy ver aquilo que ela própria começa a estar disposta a fazer.

Já pouco há a dizer sobre a capacidade interpretativa de Meryl Streep: temos aqui mais um excelente papel, que, muito justamente, lhe valeu a sua 14ª nomeação para um Óscar. Anne Hathaway interpreta o seu papel de forma competente (mas não brilhante). Uma chamada de atenção ainda para Emily Blunt e Stanley Tucci que dão às suas personagens uma dimensão muito interessante.

Termino este post com uma citação que tem bastante a ver com este filme:

" De que serve ao homem conquistar o mundo inteiro se perder a alma?"
Blaise Pascal