quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Crítica #34

INVICTUS (2009), de Clint Eastwood

Durante décadas, a África do Sul viveu com o apartheid, um sistema de segregação racial imposto por uma minoritária população branca a uma maioritária população negra. Em 1990, o presidente Frederik Willem de Klerk iniciou as negociações para acabar com o apartheid, o que aconteceu em 1994, com a eleição de Nelson Mandela.

INVICTUS começa precisamente com a libertação de Mandela (Morgan Freeman), em 1990. Os negros vêem-no como a esperança para acabar com o apartheid, os brancos vêem-no como uma ameaça. Depois de vencer as eleições, Mandela tem que lidar com os mais graves problemas do país, como o desemprego e a criminalidade, mas o que o preocupa mais é o facto de, apesar de o apartheid ter acabado no papel, não acabou nas mentalidades: os brancos ressentem-se pela perda do poder; os negros ainda vêem os brancos como o inimigo. Essas tensões reflectem-se em várias frentes: desde os seguranças de Mandela à equipa nacional de rugby, os Springboks. Num dos jogos a que assiste, o presidente repara que enquanto que a população branca apoia a sua equipa (apesar das consecutivas e embaraçosas derrotas), a população negra apoia a equipa adversária, pois ainda via os Springboks como um símbolo da supremacia branca. Imediatamente Mandela percebe o que é preciso ser feito: a equipa tem que começar a ganhar, de modo a conseguir chegar à final do campeonato mundial, que se realizaria na África do Sul em 1995. Negros e brancos unir-se-iam, assim, por um objectivo em comum. E é exactamente isso que Mandela dá a entender a François Pienaar (Matt Damon), o capitão da equipa. Pienaar é o típico afrikaner, mas percebe que o que deve mudar na equipa, não é propriamente a técnica de jogo, mas sim a mentalidade. A equipa começa a perceber isso, começando a ganhar jogos e a conquistar o apoio de brancos e negros. 

Desengane-se quem pensa que este filme se trata de uma biografia de Mandela, ou de um filme sobre o rugby. O que temos aqui é a história de como um homem conseguiu unir um país através do desporto. Um homen que, como Pienaar refere a dada altura, passou 30 anos preso e conseguiu perdoar os seus captores. Um homem que soube qual o caminho certo para começar a curar as feridas de uma nação.

O título do filme vem de um poema que Mandela dá a Pienaar, da autoria de
William Ernest Henley. "Invictus" significa inconquistável, inabalável. Mandela leu o poema quando estava na prisão e recitava-o a si próprio quando se sentia a desistir. Os primeiros versos, aliás, são repetidos várias vezes durante o filme:

Out of the night that covers me,
Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

Uma das cenas mais marcantes do filme é aquela em que Pienaar visita a cela em que Mandela esteve preso (a verdadeira cela), uma cela minúscula, em que ele próprio mal consegue esticar os braços. Nessa altura, ele percebe o sentido do poema. Percebe que não há limites para a alma humana e que nada é mais forte.

Clint Eastwood é dos últimos realizadores do dito "cinema clássico". Neste filme, ele concentra-se no seu objectivo que é pegar nesta história e contá-la do princípio ao fim, sem desvios. Para isso conta com a presença dos seus dois actores principais, que carregam a enormidade das suas personagens de forma muito competente.

É evidente que as tensões raciais não acabaram com o Campeonato Mundial de Rugby de 1995. Elas continuariam a existir (e ainda existem). Isto foi só o primeiro passo. Por vezes, só é preciso alguém que esteja disposto a dá-lo.

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